quarta-feira, 8 de agosto de 2018

De Portinari em Portinari


CRO, Flávio; VIANNA, Letícia. De Portinari em Portinari BH. 2018. Frame da videoperformance. Ação de pedalar da Casa FIAT em direção aos diversos “Portinaris” espalhados pela cidade de Belo Horizonte desenhando os percursos sobre mapas e projeção de vídeo. 205,83 km/13 h/10 dias/1:45 min.
Vídeos no trânsito: João PFA.

De 14 de maio a 14 de junho de 2018, participei da Residência em Arte Digital da Casa FIAT de Cultura, uma parceria entre o curador Pablo Gobira, professor da Escola Guignard da UEMG e coordenador do LAB|FRONT, grupo de pesquisa que auxiliou na produção de todo o processo junto ao educativo da instituição. Durante a residência convivemos em um espaço, montado pela CASACOR, que funcionou como um coworking, no qual pude desenvolver e ampliar um projeto de atravessamento da Arte pelo esporte, em consonância com o meio digital, além de ampliar suas possibilidades de apresentação graças a convivência com o grupo presente: Alexandre Milagres, Augusto Lara, Thiago Amoreira, Guilherme Xavier, Fabrício Lins, Mari Moraga e Letícia Vianna. Formei uma parceria com a designer Letícia Vianna, e condensamos a imensa quantidade de informação produzida ou pedalada, com um trabalho de edição que amalgamou as diversas camadas de dados em um vídeo que, como nos disse o artista Ariel Ferreira: "miniaturizou o tempo dessas memórias..."

O resultado das pesquisas artísticas foi apresentado ao público na exposição Cidades e Outras Passagens (2018), de 4 de julho a 5 de agosto, na Piccola Galeria da Casa FIAT de Cultura. Assim como em outras duas versões, uma sonora, apresentada no SAD (seminário de Arte Digital) em 2019 e um "corte", que circulou em algumas cidades da América do Sul no Museo de Arte Digital a Cielo Abierto da BIENALSUR de 2019.

CRO, Flávio; VIANNA, Letícia. De Portinari em Portinari BH. 2018. Videoperformance. Ação de pedalar da Casa FIAT em direção aos diversos “Portinaris” espalhados pela cidade de Belo Horizonte desenhando os percursos sobre mapas e projeção de vídeo. 205,83 km/13 h/10 dias/1:45 min.
Vídeos no trânsito: João PFA.



CRO, Flávio;  DANIEL, Nunes; VIANNA, Letícia. De Portinari em Portinari BH Sonoro. 2019. Videoperformance e composição sonora. Composição musical de "fotografias" da paisagem sonora de Belo Horizonte realizadas em ação de pedalar da Casa FIAT em direção aos diversos “Portinaris” espalhados pela cidade de Belo Horizonte desenhando os percursos sobre mapas e projeção de vídeo. 205,83 km/13 h/10 dias/2:06 min.
Vídeos no trânsito: João PFA.



CRO, Flávio; VIANNA, Letícia. De Portinari em Portinari BH Cut. 2019. Videoperformance. Ação de pedalar da Casa FIAT em direção aos diversos “Portinaris” espalhados pela cidade de Belo Horizonte desenhando os percursos sobre mapas e projeção de vídeo. 205,83 km/13 h/10 dias/30s.
Vídeos no trânsito: João PFA.

A performance foi realizada com pedaladas que partiram da Casa Fiat de Cultura em direção a obras de Cândido Portinari ou que levam o seu nome, espalhadas pela cidade de Belo Horizonte, como por exemplo, o Painel de Portinari presente na Igreja de São Francisco de Assis, na região da Pampulha. Outros exemplos de destino podem ser notados abaixo. Para tanto no início de cada pedalada foi efetuada uma fotografia digital e uma “fotografia sonora” de dez segundos de duração, em média, da Casa Fiat de Cultura ou proximidades, assim como no destino final. A atividade foi gravada utilizando um aplicativo de celular denominado Strava, que salva o percurso e sobrepõe como um desenho ao mapa da cidade, assim como insere, no mesmo, as fotografias tiradas, a partir das coordenadas compartilhadas pelo GPS do celular. As conexões do Strava também permitiram a conversão, desses desenhos cartográficos, em animações digitais dos percursos utilizando o app Relive. Todos os aplicativos permitiram o compartilhamento das atividades em diversas redes sociais virtuais. O resultado final do processo foi produzido a partir de um vídeo mesclando os processos. 



CRO, Flávio. De Portinari em Portinari CCSF. 2018, impressões sobre ímãs em placa de metal adesivada de uma performance de desenhar o percurso entre "Portinaris" no mapa de Belo Horizonte usando GPS: da Escola Estadual Cândido Portinari a Casa FIAT de Cultura, 5 x 4,5cm cada; 50 x 45cm a placa.
Design gráfico dos ímãs: Marcelo Bambirra.

A Convite do curador, artista e professor do Escola Livre de Artes Arena da Cultura, da FMC-BH, Marconi Marques, outro desdobramento do trabalho foi realizada para a exposição In-Manta (2018), realizada no Centro Cultural Salgado Filho, de 11 de agosto a 11 de outubro. O percurso pedalado da Escola Estadual Cândido Portinari a Casa FIAT de Cultura, foi convertido em pequenos ímãs, pedaços de memória, que puderam ser compartilhados com o público.










CRO, Flávio. De Portinari em Portinari. 2018, Registros da Performance.


A proposta executada, durante a residência, gerou percursos que compactuam com o tamanho da cidade na forma de desenhos expandidos. A aplicação desse conceito foi possível ao mesclar o ato de desenhar com o de pedalar, em vez de usar uma parte do corpo específica, como as mãos, para gerar um traço em uma pequena superfície, fiz uso do corpo, como um todo e da bicicleta, para “riscar” essas linhas pela cidade de Belo Horizonte. O corpo sempre foi algo presente no fazer artístico, mesmo porque não podemos abandoná-lo durante nosso fazer, mas durante grande parte da história da arte o corpo ficou a margem do fazer, escondido frente ao resultado final, apagado em relação a obra que se vê ou ficcionalizado por ela como seu tema.

Na proposta De Portinari em Portinari BH essa expansão física do desenho foi apropriada através dos mapas e vídeos virtuais gerados pelos aplicativos, de maneira a expor os resultados no videowall da instituição, para que o público posso conectar a estrutura/arquitetura da cidade, assim como visitar e articular parte de sua história, na medida que frequenta a da cidade e a dessa casa de cultura – a exposição desses percursos também é um convite para que possam pedalá-los. A apropriação e modificação dos registros fotográficos e audiovisuais a partir da sua recriação em uma animação digital também encontra eco em artistas pioneiros da video arte como o sul-coreano Nam June Paik e o brasileiro Eder Santos, de forma que não é uma escolha isolado no meio artísitco.
Retornando a questão dessa imersão no esporte-arte, gostaria de lembrar que essas particularidades foram possíveis de serem ampliadas graças ao meu interesse pela bicicleta, um veículo que incentiva a mobilidade e que é, no momento atual, uma peça fundamental para as estratégias e as políticas de sustentabilidade criadas pelo Estado, organizações civis ou ativistas independentes, pois nos propicia experimentar a cidade a partir do esporte, além de mediar a conexão entre todos esses “Portinaris”, pelos fios tecidos nos mapas, formando uma rede de conexões antes invisível.

No artigo Biografia, corpo, espaço, a educadora francesa Christine Delory-Momberger nos apresenta uma articulação do conceito e emprego da geografia, da cronografia e da biografia de maneira deveras bem inusitada. Segundo a pesquisadora, ela lê o primeiro como uma espécie de escrita do espaço, o segundo como uma escrita do tempo e o terceiro enquanto uma escritura da vida. Ao aproximar esses três conceitos nos faz notar o corpo como um espaço, mas um espaço pioneiro com o qual experimentamos o mundo, espaço esse que se locomove pelo tempo, ou seja, nos faz perceber que a experiência do corpo não se fixa nem no tempo, tampouco no espaço, mas que a prática da nossa existência demanda mobilidade na interdependência de um espaço que é tempo, corpo e vida. Essa imersão e busca de confundir ou esclarecer o corpo como espaço-tempo, pode ser percebida nas práticas de muitos artistas. Um destes é o artista francês Yves Klein, cuja fotografia Salto para o Vazio, de 1960, instaura uma lenda na qual o artista emprega sua habilidade como judoca para performar um salto no vazio. Sem esquecer das mitológicas pedaladas do artista alemão Joseph Beuys, rumo as suas exposições. Já mais recentemente o artista brasileiro Shima, passa a desenhar na cidade, ele inscreve seu corpo na matéria da mesma com suas corridas. Já a artista brasileira Elen Braga, no seu trabalho Levantamento de Peso com a Cabeça, também experimenta os limites do uso do corpo na arte ao exercitar-se em uma atividade com alto risco de lesões físicas. Afastando-se da arte e buscando o esporte, constatamos ser uma tarefa injusta relatar seus afeitos para homenagear todos os adeptos dessa prática do corpo, enquanto espaço, que coordena não só um aprendizado mental como um aprendizado físico, já que vislumbramos essa vocação como algo que acompanha a humanidade desde o princípio de sua existência e inúmeras são as modalidades, assim como os praticantes.

Já no título da proposta: De Portinari em Portinari BH faço um trocadilho com a expressão “de porta em porta”, muito comum aos caixeiros viajantes que marchavam e ainda marcham por nossas estradas com as malas cheias de mercadorias, as mais variadas e a cabeça cheia de sonhos. Apropriar-se de sonhos e recriá-los nas mentes dos homens é uma das mais antigas expectativas conectadas ao artista e algo que busco com este trabalho. A partir do texto colocado acima, destaco um conceito que perpassa por todo esse projeto, e estrutura suas bases, o da apropriação.

Afonso Romano de Sant’Anna (2003), realiza um estudo sobre a paródia e a paráfrase que nos ajuda a perceber que para além dessa ideia do roubo ou do plágio, a arte sempre se valeu de suas próprias construções para se criticar ou reafirmar, fazendo com que suas proposições se perpetuem e se renovem, junto ao trabalho de outros artistas, com o passar do tempo. Por exemplo, para ele, mais do que adaptar uma ideia através da ratificação das palavras de um autor, a paráfrase a traduz, focando na preservação dos sentidos do texto e reproduzindo-os através da sua interpretação. Já a paródia busca perverter os sentidos originais de uma obra, exagerando ou invertendo suas características para se diferenciar do original, muitas vezes ironizando-o. Nas palavras do pesquisador:


a paródia, por estar do lado do novo e do diferente, é sempre inauguradora de um novo paradigma. De avanço em avanço, ela constrói a evolução de um discurso, de uma linguagem, sintagmaticamente. Em contraposição, se poderia dizer que a paráfrase, repousando sobre o idêntico e o semelhante, pouco faz evoluir a linguagem. Ela se oculta atrás de algo já estabelecido, de um velho paradigma. (SANT’ANNA, 2003, p. 27-28).


Para o pesquisador o conceito de apropriação alinha-se com a ideia do deslocamento: quando é pequeno, quando aquilo que é apropriado se sobressai e o reconhecemos na nova proposta, ela se compara à paráfrase. Mas no momento em que vai além da reprodução e produz algo diferente, principalmente criticando esse “original”, ela se associa à paródia.

Dois artistas que trabalham com e são referências para as práticas da apropriação na arte contemporânea são o chinês Ai Weiwei e o brasileiro Nelson Leirner. Ao destacar estes artistas que possuem uma reconhecida importância no cenário da arte atual, percebemos que sua pertinência transpõe a análise das apropriações realizadas nesta proposta, visto que toca uma estratégia amplamente empregada por diversos artistas contemporâneos. A referência, portanto, permite compreender aspectos da prática da apropriação como estratégia largamente empregada e de importância central na arte atual, saindo de um contexto anteriormente considerado “marginal” para ocupar o mainstream da arte contemporânea.










CRO, Flávio. De Portinari em Portinari. 2018, Registros da Performance.

Cartaz da exposição na Casa FIAT de Cultura

Obras expostas na Piccola Galeria da Casa FIAT de Cultura

Thiago Amoreira
Trilha Sonora: Fabrício Lins.

Extrações de Alexandre Milagres.
Trilha Sonora: Fabrício Lins.

Mineiras de Mari Moraga

Extrações de Alexandre Milagres

Pixel Arte de Guilherme Xavier

Portinari Aumentado de Augusto Lara e Thiago Amoreira

Making-of dos projetos exibidos.




CRO, Flávio; VIANNA, Letícia. De Portinari em Portinari BH. 2018. Frame da videoperformance. Ação de pedalar da Casa FIAT em direção aos diversos “Portinaris” espalhados pela cidade de Belo Horizonte desenhando os percursos sobre mapas e projeção de vídeo. 205,83 km/13 h/10 dias/1:45 min.
Vídeos no trânsito: João PFA.








































exposição In-Manta, 2018, realizada no Centro Cultural Salgado Filho.

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